Primaveras que parecem outonos

Ontem fiz anos. Tinha já escolhido 3 dias de férias e fui descansar para a aldeia. Tinha tudo para correr bem, estava calor, havia piscina, tinha lá a mãe para ajudar a tomar conta do herdeiro, e sempre eram 3 dias longe do trabalho.
Na véspera de ir, a bomba… o canídeo teve um AVC e a coisa não parecia que ia correr bem. Felizmente quando a fui buscar na segunda já estava melhor, já andava, já ladrava, já corria até!
Depois, o costume do verão na serra: fogos até dizer chega, um até esteve ativo 2 horas lá na aldeia mas facilmente resolvido.
Siga então relaxar?
Não. O herdeiro esteve hiperativo o tempo todo. Abrir e fechar o portão da entrada durante 2 horas foram um dos seus passatempos favoritos. Chorar foi outro deles. Cair? Perdi-lhe a conta! Não dormir, check!
E o calor maravilha que dava para ir à piscina? Desapareceu, transformou-se primeiro num fresquinho e no último dia num frio com toma lá chuva…
Os anos? Lá passaram. Com cada vez menos chamadas. Desta vez nem os meus primos ligaram. As pessoas não sabem que fazes anos se o facebook não as avisar. E já de propósito, o meu facebook não as avisa…

Comida de cebolada

Ontem de manhã, às 08:30, a caminho do trabalho, enfaixei-me no carro da frente. A coisa não foi muito grave, basicamente chapa (plástico no caso do meu) e umas dores ligeiras no lado esquerdo do corpo, provocadas pelo cinto.

Como bati por trás, assumi a culpa, assinei a declaração amigável e siga. Acho que também estava nervosa (e dorida) e queria despachar aquilo tudo. 

Mas hoje, ao fazer o mesmo caminho e ao passar no mesmo sítio, percebi que a culpa não foi minha. No local onde bati estava ontem parada uma carrinha das obras que me tapou a visibilidade e não me permitiu ver que havia ali uma passadeira, razão pela qual o carro da frente parou (que eu também não vi por causa da carrinha) e eu lá me enfaixei…

Claro que isto não vai mudar nada. Claro que a culpa continua a ser minha. Mas senti-me um bocadinho melhor ao perceber hoje o que se passou.

E um acidente, por mais ligeiro que seja, nunca é fácil de digerir…

Insónias 

Andei a evitar escrever. Quando não queres magoar, quando não queres que leiam, quando não queres que saibam, não fazes nada. 

São 03 e eu sem sono. Eu, que vou para a cama antes das 22, que adormeço quase logo, não consigo dormir. Tudo porque amanhã é feriado e pensei que podia por uma série em dia. E calhou de ser a estupida da Grey. Onde há uma personagem com cancro da mama e ela morre.

A V. partiu dia 25 de março. Exatamente uma semana depois de termos estado em casa dela. E não me venham com merdas, eu não estava à espera… não estava! Nunca imaginei que aquela era a última vez. Quando lhe disse que lhe levava lá o herdeiro, estava a falar a sério. Não era conversa de treta, não era pancadinha nas costas. 

Não lhe disse tudo o que queria. Fiz isso há pouco tempo com a minha tia. Despedi-me dela. Da V. não consegui. Não contava com isto. E por isso foi tão difícil receber a notícia, porque não era agora, ainda tinha muito para dizer…

Merda

Relativizar

Fevereiro foi um mês maravilhoso. O R. festejou 40 anos, o herdeiro o seu primeiro aniversário. Tivemos grandes festas cá em casa, com muita família e os amigos que também fazem parte dela. Tentei vir aqui e espalhar felicidade mas o tempo foge sempre…

Março está a ser uma cagada. Começou a primavera e quase neva no Porto de tanto frio que está e eu estou de cama com uma gripe. Estou a faltar ao trabalho pela primeira vez e apesar de saber bem ter um tempo para mim, os motivos não me deixam aproveitar. Mas a verdadeira cagada não é essa, obviamente.

O cancro da V. evoluiu demasiado. Estamos a falar de uma rapariga de 33 anos que não bebe, não fuma, não tem comportamentos de risco. E a merda da doença atingiu-lhe uma mama. E depois a coluna, o fígado, a outra mama, e o corpo todo. Fomos almoçar com ela no sábado. O ambiente esteve o mais descontraído possível, com poucos amigos e conversas casuais. Mas depois iam aparecendo pessoas e foi aí que as coisas se tornaram desconfortáveis. Para mim, pelo menos.

Vim cá trazer-te este ramo de flores, dizia a rapariga que quando chegou e lhe ligou ela rejeitou a chamada.

Como é que vives sabendo o que se passa? Como é que sorris para os outros um sorriso forçado quando a tua vida está nesse ponto?

Estive 2 semanas a acordar todas as noites com pesadelos por causa disto. Só comecei a dormir bem depois de a ter visto (e de me ter drunfado) porque não imagino o que é a vida assim.

Hoje, deitada na cama, entupida até aos olhos, com dores no corpo todo e a sentir que esta gripe é o fim do mundo, penso nela. E na estupidez que é a vida…

A marcha das gajas 

No passado dia 21 de janeiro aconteceu, nos EUA e também um pouco pelo mundo, uma “woman’s march”, em que as mulheres mostraram a sua revolta por sentirem que não têm os mesmos direitos que os homens. E, apesar de eu concordar com isso em muitos e diferentes aspetos, nunca pensei em, por exemplo, juntar-me à marcha, por não me sentir tão discriminada como outras mulheres. 

Eu sei, devíamos lutar por todas, mas em Portugal não se fez grande coisa, e eu até tive o 1o aniversário do E. e depois ainda vim para casa cozinhar para 6 (família do R.)

São desculpas estúpidas. Devíamos ter todos os mesmos direitos e devíamos ter todos os mesmos deveres. 

Mesmo assim sou eu quem se levanta mais cedo. Sou eu quem se arranja com o herdeiro ao colo para que o pai possa dormir, tomar banho, vestir-se sossegado. Sou eu quem faz as compras e decide quem come o quê e quando. Sou eu quem cozinha para o herdeiro e para nós. 

Ando muito cansada, doente (há 3 dias que não sei o que é respirar pelo nariz e todas as coisas maravilhosas que as constipações trazem), e mesmo assim faço tudo.

Menos a cama. Disso trata ele. 😀 

Dar mais de mim

Não foram propriamente resoluções de ano novo (nunca as fiz) mas na última semana tenho decidido sair do marasmo. A verdade é que a minha vida é casa-trabalho-casa e mesmo aqui em casa mal o herdeiro está na cama vou a correr para a minha e durmo.

Sim, durmo!!!! Chego à cama e aterro, adormeço sem precisar de ver uma série, um filme, sem ler, sem nada. E isto, por muito bem que me saiba, não deve ser muito saudável a nível mental. 

Por isso, quando saio do trabalho, aproveito o trânsito e ligo para pessoas com quem não falo há muito. Ligar só por ligar, saber como estão, o que andam a fazer. Pode ser pouco, mas tem-me sabido bem. 

É um começo (?) ! 

Be thankful


Cá em casa sugeri fazermos isto este ano. Para já só eu participei mas cheira-me que o R. também vai fazê-lo. A cria é que não há maneira de convencer, tenho para mim que os adolescentes não se sentem gratos por nada… 😅